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Sub-luxação da Rótula no joelho

A Subluxação da Rótula (ou Subluxação Patelar) é uma condição do joelho em que a rótula (patela) desliza parcialmente para fora do seu sulco (a tróclea femoral) no fémur (osso da coxa), mas regressa espontaneamente à sua posição normal.

É diferente da luxação da rótula, onde a rótula sai completamente do sulco e fica desalinhada, exigindo geralmente uma redução manual. A subluxação é um evento mais subtil, mas frequentemente recorrente, que causa instabilidade no joelho.


Sintomas

Os sintomas da subluxação da rótula podem ser agudos (durante o evento) ou crónicos (associados à instabilidade):

  • Sensação de Instabilidade ou “Desencaixe”: O sintoma mais característico. O paciente sente que o joelho vai falhar, desencaixar ou deslizar para fora do lugar, geralmente para o lado externo (lateral) do joelho.

  • Dor Aguda: Dor intensa no joelho no momento do evento de subluxação, que pode diminuir rapidamente após a rótula voltar ao lugar.

  • Dor na Parte Anterior do Joelho (Dor Patelofemoral): Dor que piora com atividades que exigem flexão do joelho sob carga (ex: subir e descer escadas, agachar, sentar-se por longos períodos).

  • Inchaço (Edema): O inchaço pode ser leve após um único evento, mas pode ser mais pronunciado se houver irritação crónica da articulação.

  • Crepitação: Sensação de rangido, estalo ou click ao dobrar ou esticar o joelho.

  • Medo: O paciente desenvolve um medo constante de que o joelho se desloque, levando a uma restrição na participação em desportos ou atividades.


Causas

A subluxação da rótula é causada por uma instabilidade da articulação patelofemoral. Esta instabilidade resulta de uma combinação de fatores biomecânicos e estruturais:

  1. Anatomia Anormal (Malalinhamento):

    • Displasia Troclear: O sulco no fémur (tróclea) onde a rótula se encaixa é demasiado raso ou plano, o que oferece pouca estabilidade.

    • Rótula Alta (Patella Alta): A rótula está posicionada mais acima do que o normal, entrando no sulco apenas quando o joelho está mais fletido, o que a torna instável na extensão.

    • Ângulo Q Aumentado: O ângulo entre o fémur e o tendão patelar é maior do que o normal, o que aumenta a força que puxa a rótula lateralmente.

  2. Fraqueza Muscular:

    • Músculo Vasto Medial Oblíquo (VMO) Fraco: O VMO (uma parte do quadricípite) é o principal estabilizador que puxa a rótula medialmente. A sua fraqueza ou atraso na ativação permite que a rótula seja puxada lateralmente pelos músculos mais fortes do lado externo (lateral) da coxa.

  3. Lesão do Ligamento:

    • Rotura ou Distensão do Ligamento Patelofemoral Medial (MPFL): Este ligamento é o principal estabilizador passivo que impede a rótula de deslizar lateralmente. Um evento de subluxação pode distender ou romper este ligamento, levando a instabilidade recorrente.

  4. Traumatismo Direto: Um golpe forte na rótula, embora menos comum, pode desestabilizar a articulação.


Diagnóstico

O diagnóstico é realizado por um médico ortopedista:

  • Histórico Clínico: O médico irá questionar sobre os sintomas (sensação de “desencaixe”, direção do deslize), a frequência dos eventos e o histórico familiar de instabilidade do joelho.

  • Exame Físico: O médico irá:

    • Avaliar a marcha e a postura da perna.

    • Verificar o alinhamento da rótula e a sua mobilidade (teste de apprehension ou apreensão: o médico tenta mover a rótula lateralmente; se o paciente sentir dor e receio, o teste é positivo).

    • Avaliar a força dos músculos da coxa e do quadril, especialmente o VMO.

  • Exames de Imagem:

    • Radiografias (RX): Tiradas com o joelho em diferentes ângulos para avaliar o alinhamento da rótula, a altura da rótula (patella alta) e a presença de displasia troclear.

    • Ressonância Magnética Nuclear (RMN): É crucial para avaliar o estado dos tecidos moles, como o MPFL (procurando roturas ou estiramentos), a cartilagem articular da rótula e do fémur (procurando danos ou fragmentos) e o estado do músculo quadricípite.

    • Tomografia Computorizada (TAC): Pode ser usada para medir o ângulo Q e a distância entre a tuberosidade tibial e o sulco troclear (TT-TG distance), parâmetros importantes para o planeamento cirúrgico.


Tratamento

O tratamento depende da causa subjacente da instabilidade e da frequência dos sintomas.

  • Tratamento Conservador (Primeira Linha de Tratamento):

    • Indicado para o primeiro evento de subluxação ou para instabilidade leve, onde não há grande malalinhamento estrutural.

    • Repouso e Gelo: Para controlar a dor e o inchaço após um evento agudo.

    • Fisioterapia: É o pilar do tratamento. Foca-se em:

      • Fortalecimento do VMO (vasto medial oblíquo) e dos músculos do quadril (glúteos), para melhorar a estabilidade.

      • Alongamento dos músculos tensos (ex: isquiotibiais e banda iliotibial).

      • Treino de equilíbrio e controlo neuromuscular.

    • Ortóteses (Joelheiras): O uso de joelheiras específicas que ajudam a centrar a rótula durante a atividade pode ser útil.

  • Tratamento Cirúrgico:

    • Indicado para instabilidade recorrente, falha do tratamento conservador, presença de danos significativos na cartilagem ou malalinhamento estrutural grave (displasia troclear, patella alta).

    • Reconstrução do MPFL (Ligamento Patelofemoral Medial): O procedimento mais comum. O ligamento danificado é reconstruído usando um enxerto de tendão para estabilizar a rótula e evitar o deslize lateral.

    • Realinhamento Ósseo (Osteotomia): Para casos de malalinhamento grave (ex: ângulo Q muito aumentado), o osso onde o tendão patelar se insere (tuberosidade tibial) pode ser cortado e movido para uma nova posição (Osteotomia da Tuberosidade Tibial) para melhorar a trajetória da rótula.


Prevenção

A prevenção da subluxação da rótula foca-se na manutenção de uma biomecânica e força muscular adequadas:

  • Fortalecimento Específico: Focar no fortalecimento do músculo Vasto Medial Oblíquo (VMO) e dos músculos glúteos (máximo e médio), que controlam a rotação da perna.

  • Flexibilidade: Manter a flexibilidade dos isquiotibiais e dos quadricípites para evitar tensões que possam afetar a rótula.

  • Técnica de Atividade: Aprender e manter a técnica correta durante a prática de desportos (ex: evitar a rotação do tronco enquanto o pé está fixo no chão) e exercícios (ex: garantir que os joelhos não caem para dentro ao agachar).

  • Controlo do Peso: Manter um peso saudável para reduzir o stress nas articulações do joelho.

  • Equipamento: Usar calçado e palmilhas adequadas, se recomendado por um especialista, para corrigir desequilíbrios na marcha.