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Síndrome Subglútea

A Síndrome Subglútea é um termo abrangente utilizado para descrever um grupo de condições dolorosas que envolvem a área profunda da nádega (região glútea), frequentemente associadas à compressão ou irritação do nervo ciático por estruturas adjacentes, ou a patologias nas estruturas musculares, tendinosas e bursais dessa região.

O termo é por vezes usado como sinónimo de Síndrome do Piriforme (que é o diagnóstico mais comum de dor subglútea), mas também engloba outras causas, como a tendinopatia dos glúteos e a compressão por bandas fibrosas.

Vou detalhar a condição, focando-me nas patologias mais comuns incluídas neste síndrome.


Síndrome Subglútea (Inclui Síndrome do Piriforme)

Sintomas

Os sintomas são característicos de dor profunda na nádega e irritação nervosa (ciática):

  • Dor na Nádega: Dor profunda e persistente localizada na área da nádega, frequentemente descrita como na região do glúteo máximo e médio. A dor pode ser sentida como uma dor surda e constante ou uma dor latejante e intensa.

  • Dor Ciática: Em muitos casos, há irradiação da dor para a parte de trás da coxa e, por vezes, para a perna e pé, seguindo o trajeto do nervo ciático.

  • Dor com a Posição Sentada: A dor agrava-se significativamente ao sentar-se, especialmente em superfícies duras, e pode ser aliviada ao levantar-se.

  • Agravamento com o Movimento: A dor pode piorar com atividades que exigem a rotação externa e abdução (afastamento) da anca, como subir escadas, correr, ou cruzar as pernas.

  • Formigueiro ou Dormência: Sensações anormais (parestesias) podem ser sentidas na nádega, coxa e, por vezes, na perna e no pé, devido à irritação do nervo ciático.


Causas

As causas da Síndrome Subglútea são mecânicas e neuromusculares:

    1. Síndrome do Piriforme: É a causa mais comum. O músculo piriforme (um pequeno músculo profundo que liga o sacro ao fémur) fica tenso, espasmódico, ou inflamado, comprimindo ou irritando o nervo ciático, que passa por baixo (e, em algumas pessoas, através) dele.

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  1. Tendinopatia dos Glúteos: Inflamação ou degeneração dos tendões dos músculos glúteo médio e glúteo mínimo. Embora a dor seja mais lateral (Síndrome da Dor Trocanteriana Maior), pode contribuir para a dor subglútea.

  2. Bandas Fibrosas: Presença de bandas fibrosas anómalas ou cicatriciais que comprimem o nervo ciático.

  3. Patologias Bursais: Inflamação das bursas profundas da nádega (ex: bursa isquioglútea ou bursa glútea média).

  4. Anatomia Anómala: Variações anatómicas onde o nervo ciático se divide ou tem um trajeto invulgar através dos músculos, tornando-o mais suscetível à compressão.


Diagnóstico

O diagnóstico é um desafio, pois é um diagnóstico de exclusão, ou seja, outras causas de dor lombar e ciática (como a hérnia discal ou a estenose lombar) devem ser excluídas primeiro.

  • Histórico Clínico e Exame Físico: O médico (ortopedista, fisiatra ou neurologista) irá avaliar a dor, a sua irradiação e a posição que a agrava. São realizados testes específicos que colocam o músculo piriforme sob tensão (ex: Teste de Freiberg, Teste de Pace, Teste de FAIR – Flexão, Adução e Rotação Interna da anca) para reproduzir a dor.

  • Radiografias (RX): Realizadas para excluir patologias ósseas da anca ou coluna vertebral.

  • Ressonância Magnética Nuclear (RMN): É o exame mais útil para visualizar os tecidos moles. Pode mostrar inchaço ou hipertrofia (aumento de volume) do músculo piriforme, patologias dos tendões glúteos ou outras massas que possam estar a comprimir o nervo.

  • Ecografia (Ultrassonografia): Pode ser usada para avaliar a inflamação dos tendões glúteos e, dinamicamente, a relação do nervo ciático com o músculo piriforme.

  • Eletromiografia e Estudo de Condução Nervosa (ENMG): Utilizados para confirmar o comprometimento do nervo ciático, e para diferenciar a compressão periférica (no glúteo) da compressão central (na coluna vertebral).

  • Bloqueio Diagnóstico: A injeção de anestésico local (guiada por ecografia ou TAC) diretamente no músculo piriforme. Se esta injeção aliviar temporariamente a dor, confirma-se a origem da dor no espaço subglúteo (Síndrome do Piriforme).


Tratamento

O tratamento para a Síndrome Subglútea é primariamente conservador.

  • Medicação:

    • Anti-inflamatórios Não Esteroides (AINEs): Para reduzir a dor e a inflamação.

    • Relaxantes Musculares: Podem ser prescritos para aliviar o espasmo do músculo piriforme.

    • Neuropáticos: Medicamentos para a dor nervosa (ex: gabapentina, pregabalina) podem ser usados para a dor ciática.

  • Fisioterapia: É o pilar do tratamento. Inclui:

    • Alongamentos: Alongamentos específicos do músculo piriforme e dos rotadores externos da anca.

    • Fortalecimento: Fortalecimento dos músculos glúteos e estabilizadores da anca para melhorar a biomecânica e reduzir o stress sobre o piriforme.

    • Terapia Manual: Técnicas de libertação miofascial ou massagem profunda para reduzir a tensão muscular.

  • Modificação de Atividades: Evitar ou limitar atividades que agravem a dor (ex: longos períodos sentado, corrida em superfícies inclinadas).

  • Infiltrações:

    • Injeção de Corticosteroides: Injeções de corticosteroide e anestésico no músculo piriforme (guiadas por imagem) para reduzir a inflamação e o espasmo.

    • Injeção de Toxina Botulínica (Botox): Pode ser injetada no músculo piriforme para relaxar o espasmo muscular e aliviar a compressão do nervo.

  • Tratamento Cirúrgico:

    • Raramente é necessário. É reservado para casos crónicos e graves que não respondem ao tratamento conservador e nos quais o diagnóstico de compressão é confirmado.

    • Libertação Cirúrgica do Piriforme: O cirurgião pode realizar a descompressão do nervo ciático e, em alguns casos, cortar uma parte do tendão do piriforme (tenotomia) para aliviar a compressão.


Prevenção

A prevenção foca-se na manutenção da flexibilidade, força e ergonomia.

  • Alongamento Regular: Manter a flexibilidade dos músculos glúteos e isquiotibiais (parte posterior da coxa) através de alongamentos diários.

  • Fortalecimento dos Glúteos: Fortalecer o glúteo médio e os músculos estabilizadores da anca para garantir o alinhamento correto da bacia durante o movimento.

  • Ergonomia ao Sentar:

    • Evitar sentar-se por longos períodos; fazer pausas frequentes para se levantar e caminhar.

    • Usar uma almofada de assento que reduza a pressão nas nádegas e evite o cruzamento das pernas.

  • Técnica Desportiva: Corrigir a técnica de corrida ou outros exercícios para evitar o excesso de rotação interna da anca.