Rótula Bailarina
Síndrome da Rótula Deslizante (Instabilidade Patelofemoral)
A rótula (patela) está normalmente estabilizada para deslizar para cima e para baixo num sulco do fémur (osso da coxa) chamado tróclea femoral. A instabilidade ocorre quando a rótula tende a mover-se ou “deslizar” lateralmente (para fora) do sulco durante a flexão e extensão do joelho, podendo levar à subluxação (deslocamento parcial) ou luxação (deslocamento total) da rótula.
Sintomas
Os sintomas variam consoante a gravidade e o grau de instabilidade:
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Dor Frontal do Joelho (Peripatelar): Dor vaga ou aguda na parte da frente do joelho, que é agravada por atividades como subir/descer escadas, agachar-se, correr ou sentar-se por longos períodos.
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Sensação de Instabilidade ou “Desencaixe”: O paciente sente que o joelho está prestes a ceder, a “dar de si” ou que a rótula está prestes a sair do lugar.
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Crepitação: Sensação de rangido, estalido ou clique ao dobrar e esticar o joelho.
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Subluxação ou Luxação (Casos Graves):
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Subluxação: Deslocamento parcial da rótula, que volta ao lugar sozinha. Causa dor aguda, mas a recuperação é rápida.
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Luxação: Deslocamento total da rótula para fora do sulco (geralmente lateralmente). Causa dor intensa, inchaço e a deformidade visível do joelho (a rótula fica visivelmente deslocada). Requer assistência médica para ser recolocada no lugar.
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Inchaço (Edema): O inchaço pode ser intermitente, especialmente após luxações ou períodos de alta atividade.
Causas
A instabilidade da rótula é causada por uma combinação de fatores estruturais (anatómicos) e funcionais (musculares):
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Anatomia Anormal (Fatores Estruturais):
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Displasia da Tróclea: O sulco do fémur onde a rótula desliza é demasiado plano ou raso (hipoplásico), permitindo que a rótula deslize lateralmente mais facilmente.
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Rótula Alta (Patella Alta): A rótula está posicionada mais alta do que o normal no sulco, o que a torna menos estável no início do movimento.
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Ângulo Q Aumentado: O ângulo entre o fémur e a tíbia é excessivamente aberto, o que puxa a rótula mais lateralmente.
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Desequilíbrio Muscular (Fatores Funcionais):
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Fraqueza do Vasto Medial Oblíquo (VMO): Esta porção do quadríceps é crucial para puxar a rótula medialmente (para dentro). A sua fraqueza permite que o vasto lateral puxe a rótula para fora.
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Encurtamento Muscular: Encurtamento dos músculos isquiotibiais ou do tendão de Aquiles.
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Traumatismo: Um impacto ou torção forte no joelho pode causar a primeira luxação, danificando os ligamentos que mantêm a rótula no lugar (especialmente o Ligamento Patelofemoral Medial – MPFL), levando à instabilidade recorrente.
Diagnóstico
O diagnóstico é realizado por um médico (ortopedista) e baseia-se em:
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Histórico Clínico: O médico questiona sobre a dor, as atividades que a agravam e a descrição exata do “desencaixe” ou da luxação.
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Exame Físico: O médico examina o joelho para avaliar o inchaço, a dor e a apreensão (o medo que o paciente demonstra quando o médico tenta empurrar a rótula lateralmente). O alinhamento das pernas e a força do quadríceps (VMO) também são avaliados.
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Exames de Imagem:
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Radiografias (RX): Permitem avaliar a posição da rótula (patella alta) e a forma geral dos ossos, incluindo a profundidade da tróclea e o alinhamento ósseo.
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Tomografia Computorizada (TAC): É excelente para medir com precisão a distância entre a tuberosidade da tíbia e o sulco da tróclea (TAT-GT), uma medida importante para o planeamento cirúrgico.
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Ressonância Magnética Nuclear (RMN): É o melhor exame para avaliar os tecidos moles, como o Ligamento Patelofemoral Medial (MPFL), cartilagem e meniscos, e para confirmar danos causados por luxações anteriores.
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Tratamento
O tratamento para a instabilidade da rótula é geralmente conservador, sendo a cirurgia reservada para instabilidade recorrente ou lesões graves.
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Tratamento Conservador (Primeira Linha):
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Fisioterapia: É o tratamento mais importante. Foca-se em:
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Fortalecer o músculo Vasto Medial Oblíquo (VMO).
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Fortalecer os músculos da anca (abdutores e rotadores externos) para melhorar o alinhamento da perna.
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Alongamento dos músculos isquiotibiais e quadríceps.
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Medicação: Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) para controlar a dor e a inflamação.
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Ortóteses (Joelheiras): O uso de joelheiras ou braces com suporte lateral para manter a rótula centrada durante a atividade pode ajudar.
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Modificação de Atividades: Evitar agachamentos profundos e atividades que exijam flexão excessiva do joelho.
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Tratamento Cirúrgico: Indicado após luxações recorrentes, quando o tratamento conservador falha, ou quando há lesão grave do MPFL ou deformidades ósseas significativas.
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Reparação ou Reconstrução do MPFL: Este ligamento é o principal estabilizador medial da rótula. A sua reparação ou reconstrução (com um enxerto de tendão) é o procedimento mais comum para luxação recorrente.
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Osteotomias: Procedimentos para alterar o alinhamento ósseo (ex: Transposição da Tuberosidade da Tíbia), movendo o ponto de inserção do tendão rotuliano para melhorar o ângulo de tração da rótula.
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Trocleoplastia: Cirurgia para aprofundar o sulco da tróclea em casos de displasia grave.
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Prevenção
A prevenção foca-se em manter a estabilidade muscular e um bom alinhamento biomecânico:
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Fortalecimento Específico: Fazer exercícios regulares para fortalecer o músculo VMO e os músculos da anca (glúteos).
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Técnica Desportiva: Aprender e praticar a técnica de aterragem e movimento correta em desportos (especialmente em desportos de salto e pivot), garantindo que os joelhos ficam alinhados sobre os pés.
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Alongamentos: Manter a flexibilidade dos isquiotibiais e quadríceps para reduzir a tensão no joelho.
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Uso de Palmilhas: Em alguns casos de alinhamento anormal dos pés, o uso de palmilhas ortopédicas pode ajudar a melhorar a biomecânica geral da perna.
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Evitar Atividades de Risco: Pessoas com histórico de instabilidade devem evitar, ou modificar, atividades que envolvam rotação e paragens bruscas.