Skip to main content

Fratura de Stress

A sua questão sobre Fratura de Stress no Joelho refere-se, na verdade, a fraturas de stress que ocorrem nos ossos adjacentes à articulação do joelho, pois o joelho em si é uma articulação, não um osso que se possa fraturar por stress.

As fraturas de stress na região do joelho ocorrem mais frequentemente na:

  1. Fémur Distal (extremidade inferior do osso da coxa).

  2. Tíbia Proximal (extremidade superior do osso da canela).

  3. Raramente, na Rótula (Patela).

Estas lesões são pequenas fissuras nos ossos, causadas por forças repetitivas, e são comuns em atletas de resistência. Vou descrever a condição focando-me nas fraturas de stress na Tíbia Proximal, por serem frequentes na região.


Fratura de Stress na Região do Joelho (Exemplo: Tíbia Proximal)

A Fratura de Stress é uma lesão por sobrecarga, caracterizada por pequenas fissuras ou microtraumatismos num osso, resultantes da incapacidade de o osso se adaptar e reparar o dano causado por forças repetitivas.


Sintomas

Os sintomas das fraturas de stress na região do joelho desenvolvem-se insidiosamente (lentamente) e pioram com o tempo:

  • Dor progressiva: A dor começa como uma dor vaga, sentida apenas durante o exercício (ex: a correr), mas alivia com o repouso.

  • Dor persistente: Com o tempo, a dor torna-se mais intensa e persiste mesmo após o fim da atividade física.

  • Dor ao repouso: Em estágios avançados, a dor pode ser sentida mesmo em repouso e durante a noite.

  • Dor à palpação: Dor muito localizada e aguda ao pressionar o osso (tíbia ou fémur) no local da fratura. Este é um sinal diagnóstico crucial.

  • Edema (Inchaço) Leve: Pode haver um inchaço ligeiro e localizado na área afetada.

  • Dor ao suportar peso: A dor agrava-se ao caminhar ou ao suportar o peso do corpo.


Causas

As fraturas de stress são causadas por um desequilíbrio entre a sobrecarga óssea e a capacidade de remodelação do osso:

  • Aumento Súbito da Atividade: O fator mais comum é um aumento muito rápido na frequência, duração ou intensidade do treino (ex: correr mais quilómetros por semana, aumentar a carga de treino).

  • Biomecânica Deficiente: Problemas na forma como o pé bate no chão (pronada ou supinada), desalinhamento das pernas ou fraqueza muscular podem levar à distribuição anormal do stress no osso.

  • Equipamento Inadequado: Uso de calçado desportivo desgastado ou inadequado que não amortece o impacto de forma eficaz.

  • Fatores Nutricionais: Deficiência de Vitamina D ou Cálcio, que são essenciais para a saúde óssea.

  • Fatores Hormonais e Energéticos: A “Tríade da Atleta” (perturbações alimentares, amenorreia – ausência de menstruação, e osteoporose) aumenta drasticamente o risco em mulheres.


Diagnóstico

O diagnóstico é um desafio na fase inicial, pois as radiografias podem ser normais.

  • Histórico Clínico e Exame Físico: O médico irá obter um histórico detalhado da dor, do regime de treino e da presença de dor muito localizada ao toque (sinal de dor óssea).

  • Radiografias (RX): Geralmente são negativas nas primeiras 2 a 4 semanas. Se a fratura for mais antiga, a radiografia pode mostrar sinais de calosidade óssea (reparação) no local da fissura.

  • Cintigrafia Óssea: É muito sensível e consegue detetar áreas de aumento da atividade óssea (remodelação) nas fases iniciais, indicando a fratura de stress.

  • Ressonância Magnética Nuclear (RMN): É o método mais específico e de eleição. Pode detetar a fratura de stress muito cedo, antes mesmo da cintigrafia, visualizando o edema da medula óssea (reação de stress ósseo) e a própria fissura. É também útil para distinguir a fratura de outras causas de dor.


Tratamento

O tratamento primário é o repouso relativo para permitir a cicatrização do osso:

  • Repouso e Modificação de Atividades: Suspender ou reduzir drasticamente a atividade que causou a dor (ex: corrida, saltos). Deve ser substituída por atividades de baixo impacto (ex: natação, bicicleta).

  • Imobilização (Em casos graves): Fraturas de stress de alto risco (como no colo do fémur) podem exigir imobilização com muletas e, por vezes, cirurgia imediata para evitar uma fratura completa. Outras fraturas de stress estáveis podem ser geridas com repouso.

  • Medicação: Analgésicos (como o Paracetamol) para controlar a dor. Anti-inflamatórios (AINEs) são controversos, pois podem atrasar o processo de cicatrização óssea, devendo ser usados com moderação.

  • Correção Nutricional: Suplementação de Vitamina D e Cálcio, se houver deficiência.

  • Fisioterapia: Essencial para corrigir a biomecânica e os desequilíbrios musculares:

    • Fortalecimento dos músculos do core, dos glúteos e dos músculos da perna para otimizar a absorção de choque.

    • Treino de marcha e corrida.

O regresso à atividade desportiva só deve ocorrer sem dor ao suportar peso e com o aval do médico/fisioterapeuta, sendo a progressão muito lenta e gradual.


Prevenção

A prevenção foca-se na gestão do treino e na otimização da saúde óssea:

  • Progressão Gradual do Treino: Seguir a Regra dos 10%: não aumentar o volume total de treino (quilómetros, tempo, carga) em mais de 10% por semana.

  • Nutrição Adequada: Assegurar uma ingestão adequada de calorias, Cálcio e Vitamina D.

  • Descanso e Recuperação: Incluir dias de descanso na rotina de treino para permitir a reparação óssea e muscular.

  • Calçado Adequado: Trocar o calçado de corrida regularmente (geralmente a cada 500-800 km) e usar um modelo apropriado ao seu tipo de pé e marcha.

  • Fortalecimento Muscular: Integrar treino de força para os músculos do core, glúteos e pernas para melhorar a estabilidade e a absorção de impacto.

  • Avaliação Biomecânica: Consultar um fisioterapeuta ou especialista em running para avaliar a técnica e a biomecânica.